Aderaldo Luciano30 January 2009 2:48 am

0. Viver é como dormir: uns têm pesadelos, outros não querem acordar e há aqueles, como eu, que são acalentados pela insônia.

1. Viver é como cantar: uns desafinam, outros se afinam e há aqueles, como eu, que apenas dublam com playback.

3. Viver é como chorar: uns se desesperam teatralmente, outros deixam apenas a lágrima tímida descer pela face e há aqueles, como eu, que fingem nem ligar.

4. Viver é como blogar: uns o fazem intensamente, todos os dias, outros esperam meses para dizer alguma coisa e há aqueles que, como eu, gostam mesmo é de ler o blog dos outros e invejá-los.

Aderaldo Luciano 2:42 am

1. Estou em conflito com minha tese de doutorado. Ela está ganhando o cabo de guerra. Teima em não sair do lugar e seu peso é grave, seus pés se enterraram na terra e dali não avançam nem um milímetro. Cometi um erro de avaliação e estou pagando o preço. Abandonei antigos projetos e o novo projeto pede mais gás. E para mim, todo gás agora, é de efeito estufa. Estou estufando. Vou tentando e cada vez que me sento para escrever, vem uma voz e me diz: – Não vai sair, não vai sair, não vai sair!” Daqui a pouco é todo mundo gritando: “– Não vai sair, não vai sair!”, como naquela música louca e diabólica de Roberto Carlos “Guerra dos meninos”, num interminável “lá, lá, lá, lá, rá, lá! lá, lá, lá, lá,rá,lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!” Arre, diabos!

2. Me meti a adaptar para a Literatura de Cordel “A Metamorfose”, aquela história do Franz Kafka. Mas expliquei aos editores que meu plano é um cordel-quadrinhos no qual cada sextilha corresponde a um quadrinho, expostos lado a lado. Entretanto o quadrinho não quero desenhado explicando nem representando a sextilha, nem um retrato da situação. Deve ser a leitura do ilustrador. Os seus sentimentos diante do escrito, assim cada quadrinho não deve representar a narrativa e talvez tenha mesmo um outro olhar estranho, uma outra história. Os editores acharam muito complicado e me acuaram a desistir do projeto. E eu desisti dos editores, mesmo cometendo essas coisas grifadas!

3. “O Rio São Francisco estava ali bem na sua frente. Era o primeiro rio de verdade que Pedro via. Tinha água marrom. Eram águas de inverno. Do lado de cá uma cidade chamada Juazeiro, do lado de lá, Petrolina. Viu coisas que nunca imaginara ver. Viu uvas e mangas, morangos e cajus. Alguém comentou que aquelas frutas eram produzidas ali mesmo com água do rio que tinha nome de santo. Tudo que ouvira até ali sobre o Nordeste é que era uma terra seca, de famintos. Mas uva e morango? Ali? Aquilo não era o que chamavam de sertão? Pedro começava a ver as verdades amadurecendo em seus olhos!” Escrever é cortar o “que”! Tente quem quiser!

4. Não venha para cá conversar besteira. Sei que você não leu a “Peleja virtual de Glauco Mattoso com Moreira de Acopiara”! Muito menos as “Traquinagens de João Grilo” de Marco Haurélio. Tampouco “As Aventuras do Matuto Zé Ruela” de Cacá Lopes. “O Cangaço Sustentado Pelos Coronéis” de Varneci Nascimento, então, é alienígena para você. Não leu, né? É pedir demais para você, não? Pois bem, meu filho, esse seu preconceito, essa sua falsa cultura, essa bazófia sua, tudo isso, que você alardeia, até suas leituras esquizofrênicas sobre Heidegger e suas câmaras de gases… Você já leu Costa Senna?

Aderaldo Luciano27 January 2009 4:35 am

Eu quis desenhar um sol
na areia, bem perto ao mar
para que as águas deste
pudessem lhe refrescar
a maré subiu sem regras:
impossível ao sol brilhar!

Aderaldo Luciano21 January 2009 2:08 am

Recebi a seguinte mensagem:

Depois de 31 anos dedicados à melhor música brasileira, a gravadora independente carioca Kuarup Discos decidiu encerrar suas atividades nesta virada de ano.

Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download da internet. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade.

Agradecemos aos nossos funcionários, representantes, amigos, clientes e fornecedores, e sobretudo aos nossos artistas, que continuarão a carregar a bandeira desta música brasileira que ajudamos a divulgar durante todos estes anos.

Kuarup Produções Ltda/ Kuarup Discos

Fato lamentável pois o elenco da Kuarup é (ou era) da maior competência e importância para a o meio cultural brasileiro. Estamos todos os de minha geração órfãos musicais. Foi com a música produzida por ela que crescemos e descobrimos a qualidade de nossos compositores. Entramos no mundo com o primeiro Cantoria, no qual Elomar, Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo nos embalavam, e continuamos até o último dvd de Sivuca. De muita tristeza essa notícia. Semelhante ao que nos consternou com o desaparecimento da Marcus Pereira e da Rosenblit, mais antigamente!

Aderaldo Luciano 1:54 am

Pois é, o disco Francisco Forró Y Frevo de Chico César desde que entrou aqui em casa pelas mãos de minha esposa, como presente para mim, tem causado abalos culturais. A maestria dos arranjos, a sensibilidade das letras, as parcerias, a voz doce, as sanfonas, os metais, os efeitos mecânicos, os personagens Claudionor Germano, o Rei do Frevo, Zabé da Loca, a Rainha do Pife, Armandinho, o Rei do Pau Elétrico. É uma coisa. Cada vez que escuto acho uma coisa nova, um efeito subliminar, um bendito, uma denúncia, uma dedicatória. Não é só!

Acontece que minha filha de cinco anos também descobriu o sujeito e agora anda vivendo, acho eu, o seu primeiro alumbramento. Cantarolando para lá e para cá o xote Comer na Mão. Foi fuçar meus cds e dvds e encontrou mais coisa e quer ouvir e quer saber quem é e escreveu carta e desenhou o rapaz e quer que eu mande essas coisas para ele e quer saber tudo da vida. Consultei uma amiga psicanalista para um aconselhamento informal e fui esclarecido que é coisa normal. Não se passa um dia em que ela não cita o nome do dito cujo pelo menos três vezes.

Aderaldo Luciano16 January 2009 3:53 am

1.
Medusa mirava-se no espelho
e penteava a longa cabeleira

2.
Um chato de galochas repousava
encostado a um pêlo pubiano
de um gato de botas

3.
Duas centopéias
despediram-se em um longo e interminável abraço!

4.
um elefante esqueceu de dar o nó em sua gravata borboleta

5.
O Patinho Feio, de passagem pela França, descobriu-se
um lindo e maravilhoso
Foie Gras!

Aderaldo Luciano 3:30 am

Pedro, agora, tinha certeza de uma coisa: todos aqueles que o chamavam de paraíba não sabiam onde ficava a Paraíba, nem que a Paraíba era tão longe.

Aderaldo Luciano 3:27 am

O fracasso, na primeira metade do século XX, da teoria do bem-estar movido pelo progresso além de ter reflexos sociais claros, vide os acontecimentos da primeira e da segunda guerras mundiais, entremeadas pela consolidação da Revolução Russa de 1917, resultou no malogro de um projeto estético a que se chamou de modernidade. As ruínas da Europa foram sua assinatura mais cruel, o holocausto sua mancha mais discutida e as bombas de Hiroshima e Nagasaki o passaporte para o futuro. O longevo século XX foi a união de setenta anos de intenso reconstruir de fronteiras, espremendo nações, mediados por trinta anos de conflitos étnicos e guerra fria. Em suma, aquele século, que deveria ser o grande herdeiro das luzes, o colheitador dos frutos plantados, foi um algoz malfadado, o senhor da morte, o guardião da desesperança. Os acontecimentos recentes em Gaza só consolidam este pensamento.

Aderaldo Luciano 3:15 am

Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.

A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Ferréz um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.

A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.

Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verá os próprios passos.

Aderaldo Luciano14 January 2009 4:03 am

1. Quando de meu profundo desengano ante o caminho dos estudos literários, já exauridos, encontrei três breves bálsamos, loções de algum ânimo, fagulhas de remota esperança. Foram os acenos para o meu reencontro, na encruzilhada central, com tênues luzes no horizonte:

a) O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual);

b) A escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência);

c) A Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis).

Eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, cintilam na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares.

2. André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam.

3. O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana… ilusão treda…” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.

4. Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:

O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.

5. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas).

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