Aderaldo Luciano5 September 2007 6:05 am

Traduzi para a revista Confraria dois pequenos textos do escritor marroquino Muhammad Ibrahim Bu’allu. Doutor em Filosofia e professor na Universidade de Rabat, Marrocos, escreveu “O jinete e o cavalo”. É a primeira tradução para o português, mesmo que insignificante, de sua pena. Parte de suas Historietas em minuto

A árvore

Sentaram-se debaixo da árvore para, sob sua sombra, protegerem-se do sol, tiraram a comida de suas marmitas, colocaram diante de si e começaram a comer em grupo; logo deitaram no chão antes que terminasse o tempo do almoço e da sesta e tivessem que voltar ao trabalho duro novamente.

A sonolência desceu sua mão pesada sobre suas pálpebras, enquanto as folhas compunham a música da canção que embalava seus sonhos. Já têm com essa árvore encontros diários que se repetem desde que ali chegaram; mais ainda, ela se converteu em sua sala de jantar, na qual almoçam e compartilham o pão.

Um deles pensou: é a única árvore por aqui. E estava certo. Este lugar antes era um verde de árvores, no entanto eles mesmos, era seu trabalho, as arrancavam pela raiz. Casas tomariam conta da paisagem.

Alguns pássaros iniciaram uma sinfonia, um diálogo musical com as folhas, ramos e galhos, e a música os reconfortou e quiseram ficar ali, à sombra fresca, por mais tempo; todavia alguém grita, ferindo a harmonia, o fim do descanso.

Levantados, seguiriam de volta ao trabalho, porém a voz rouca dava ordem para permanecerem ali; veio até eles, postou-se ao centro, definiu suas ordens e se foi.

O tempo pareceu suspender-se frente ao silêncio profundo de seus olhares. Não se sabe de sua comoção, sabe-se apenas que com suas picaretas arrancaram-na pela raiz, afugentando os pássaros.

O homem silencioso

Em qualquer botequim, bar ou lugar de reuniões ele está lá; sempre presente, pensativo com seu cigarro entre os lábios, que, de vez em quando, segura com a mão e bate a cinza.

Todas as línguas repetem seu nome; seu lugar está guardado em todos os encontros, festivos ou não. Se alguém quer conhecê-lo, basta saudá-lo com o olhar, balançando a cabeça. Ele responderá da mesma forma. Ninguém, entrementes, é capaz de conhecer sua opinião sobre isso ou aquilo.

Sabe escutar; pelo menos é o que parece; se não escuta seu interlocutor, da mesma maneira que não fala, não é possível demonstrar e só ele poderia confessá-lo.

Todos acham que não é perigoso; mas quem seria capaz de provar tal fato sobre um indivíduo presente em todas as rodas sem que ele expresse opiniões sobre o que se fala…

Alguém tentou. E esteve com ele diversas vezes; conversou com ele sobre diversos assuntos; o homem silencioso movera sua cabeça afirmativamente em relação a tudo que ouvira. Então este alguém convenceu-se de que ele não era perigoso, pois expusera uma idéia que ele aceitara, para, logo, lançar outra idéia, de sentido oposto, e ele também concordara. Na verdade, o homem silencioso escuta mas não ouve e está presente em toda parte e o mundo todo o conhece.

Aderaldo Luciano 5:58 am

1. A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina.

2. É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia-a-dia, na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais, privando-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Mas não sem antes tentar espelir-me, tomando chás amargos para abortar. Todavia eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes àquele útero quente e promissor.

3. O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

Aderaldo Luciano1 September 2007 3:55 am

1. Os fundamentos. “A terra é redonda como uma laranja”, afirmara José Arcádio Buendía à sua amada Úrsula. Esta convenceu-se de sua loucura, mas Macondo cumpria sua saga e nada poderia deter a civilização. Perplexo diante das maravilhas trazidas pelos ciganos, entre elas um tapete voador, Buendía idealizava instrumentos, solitário. Seu modo de ver o mundo, circunscrito aos limites de sua aldeia, tornava-se um elemento incômodo à vida pacata e leve dos seus conterrâneos.

2. Os alicerces. Se a loucura é uma marca de exclusão, seja ela, a loucura, doença ou saúde mental, nós adentramos os seus labirintos. Entretanto, olhando pela janela, fica-nos a pergunta sempre imutável de Augusto dos Anjos: “Para onde iremos, montados nesse cavalo de eletricidade?” Sabe-se apenas de uma parada gay sob bombas em Jerusalém. De um Papai Noel pedófilo, preso em Nova York. De uma bomba-atômica testada com sucesso na Coréia do Norte.

3. As estruturas. Antes do Natal, antes do Ano Novo, ouçamos atentos os conselhos dos tarólogos: aprendamos com quem dá as cartas. Se cartas marcadas, se cartas na manga, se cartas de navegação: sejam todas epístolas de bem-aventurança, de boas novas. Todavia não esqueçamos que haverá sempre um lugar em que nada se cria, nada se transforma e tudo se perde. Não seja aqui. Navegar será sempre preciso, viver é que é impreciso!

4. Os tijolos. “Quando ando pelas ruas do Rio e de Salvador, os signos corporais transformam meu corpo europeu num outro ser”. Isso foi dito por Henri-Pierre Jeudy. Quando esteve pela décima vez no Brasil, em 2005, e lançou seu livro Espelho das Cidades, o filósofo-sociólogo-escritor pensava na espetacularização das cidades como mote de suas propagandas. Sobre o Brasil e a América Latina pensaríamos mais abrangentemente. O espetáculo é geral, horizontal e verticalmente, uma parábola. Ali na esquina dos mundos estão nossos governantes espetaculares, brandindo discursos e cerrando os punhos para a CNN. Que a terra lhes seja leve.

5. A cimentação. Quando nos deparamos com o naipe afro-cubano de Buena Vista Social Club e sua sensualidade, não vemos Habana Vieja espetacularizada. Seremos videntes e veremos espectros. Ghosts de um mundo antigo, de fausto apócrifo, de riquezas saqueadas, ruínas da história. Wim Wenders o gravou em vídeo digital. A tecnologia mais avançada resgatando a tradição mais conservadora. Seria o ouro sobre o barro. Ou o diamante sobre as asas, ou o desejo do ouro e a necessidade de possuir asas.


6. As lajes.
O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna num bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola. A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

Contador de visitas

Creative Commons License
http://adercego.blogsome.com by Aderaldo Luciano is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.