Aderaldo Luciano15 June 2009 6:18 pm

O centenário de Patativa do Assaré foi comemorado em alguns lugares e por alguns órgãos. A TV Brasil, pelo programa De Lá Pra Cá, deu sua contribuição aos festejos com um programa dedicado ao poeta cearense. Fui um dos entrevistados. A entrevista está abaixo:


Infelizmente ainda reside uma certa miopia em alguns setores acadêmicos que teimam em ignorar a contribuição poética oriunda das classes pobres. Daí serem, os chamados “poetas populares”, alijados de qualquer evento produzido pelas elites, salvo quando querem dar uma de filantropas. É triste.

Poetas cordelistas, todavia, se encontraram em Brasília e construíram um encontro sensacional com a presença do presidente Lula e de estudiosos e amantes do cordel. Estava lá o poeta Rouxinol do Rinaré que nos passou estes versos feitos quando da morte do Patativa:

PATATIVA DO ASSARÉ
DEIXA O NORDESTE DE LUTO

Que dura realidade
A morte se encheu de orgulho
Marcando o oito de julho
Como o dia da saudade
Aos noventa e três de idade
O poeta deixa a vida
Patativa que na lida
Foi guerreiro resoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Alçou voo o Patativa
Deixou choroso o nordeste
Foi para a corte celeste
Na angelical comitiva
Sua poesia viva
Jamais será esquecida
Na sua Assaré querida
Não há um só olho enxuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

O defensor dos roceiros
Rompeu o sagrado véu
Foi recebido no céu
Na corte dos violeiros
Gonzaga e mil sanfoneiros
Vieram dar-lhe acolhida
Na terra a voz dolorida
De todo o povo eu escuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Adeus poeta do povo
“Inspiração Nordestina”
Com tua lira tão fina
Quem nos cantará de novo?
No meu versejar promovo
Com a pena comprometida
Eu quero uma estátua eguida
Deste poeta matuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Cessou toda melodia
Assaré emudeceu
O Patativa morreu
Abalou-se a poesia
A noite triste surgia
Com o manto da despedida
Curvou-se a musa sentida
Num silêncio absoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Nas asas da esperança
Ultrapassou a fronteira
Além-pátria brasileira
É estudado na França
Em Assaré por lembrança
Há uma casa erigida
No céu recebeu guarida
Descanso em absoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Sinto uma lágrima cair
Em cima de minha arte
Não vejo em nenhuma parte
Mais “um verso se bulir”
Foi Deus quem quis se servir
Da poesia mais lida
Da voz que foi tão ouvida
Nem um som sequer escuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida!

Ao saudoso menestrel
Patativa do Assaré
Rouxinol do Rinaré
Faz homenagem em cordel
Pela musa mais fiel
Minha mão foi conduzida
Com a face umedecida
Eis ao mestre o meu tributo
Pois também estou de luto
Por sua triste partida!

Rouxinol do Rinaré

Alguns comentários que me chegaram por e-mail:

“… estou colocando em uma das páginas mais vistas de Blocos (com quase 50.000 páginas on line). É só clicar no link abaixo:
http://www.blocosonline.com.br/literatura/servic/sernotic.php#informacoes ”
Leila Mícolis

“Sua entrevista sobre Patativa do Assaré esteve ótima. Desenvoltura, empatia para com as coisas aqui de nós, sensibilidade e inteligência respondem pelo seu perfil de cantador e poeta cangaceiro.”
Hildeberto Barbosa Filho


“eu vi no dia mesmo, aderaldo, parabéns!”

Elaine Pauvolid

“Aderaldo, vi a reportagem e não sabia que você tinha intimidade com o violão… Parabéns.”
Antonio Gouveia

“Vi ontem a noite a apreciei bastante a tua intervenção.
Parabéns e, finalmente, conheci o prof. Aderaldo…
Gostei!!!”

Kydelmir Dantas

Aderaldo Luciano28 April 2009 5:11 pm

O programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, vai ao ar às segundas-feiras a partir das 22:00h, apresentado por Ancelmo Góis e Vera Barroso. No programa sobre o mestre Vitalino de Caruaru fui um dos entrevistados falando sobre as intersecções entre a vida e a obra do mestre do barro e a Literatura de Cordel. Editei a matéria e o resultado está aqui:


Para a entrevista, pensando em emoldurar ludicamente a matéria, pedi a alguns poetas de cordel a gentileza de produzirem algo para que eu pudesse ler no programa, para provar a atualidade e o tom memorialístico do “deus do barro do Alto do Moura”. Como o tempo do programa é pouco, na edição foi para o ar apenas a leitura das estrofes de Rouxinol do Rinaré. Os que me enviaram, pedi licença para postar aqui os seus versos.

Marco Haurélio, pesquisador, poeta, autor de diversos cordéis, fã de Cancão de Fogo e João Grilo, curador da Coleção Clássicos do Cordel da Editora Nova Alexandria, enviou o seguinte:

Salve, Mestre Vitalino!

Salve, Mestre Vitalino,
Herdeiro da tradição,
Oleiro sacro divino,
Que criou com sua mão
Vida, pulsante e agreste,
O folclore do Nordeste,
A tradição pastoril,
A gesta dos cangaceiros,
Epopéia de guerreiros,
A alma deste Brasil.

Vem de Ribeira dos Campos
Este artista singular,
Que igualmente aos pirilampos
Nasceu para iluminar
A fatigante existência,
Tendo o barro por essência
De sua recriação
E, assim de modo preciso,
Faz lembrar Paraíso
Quando Deus criou Adão.

Ó bela Caruaru!
Impávido Leão do Norte
Caboclo selvagem, nu,
Terra augusta, a tua sorte
É semear a cultura,
É fazer bela figura
Nesse solo nordestino,
Que há cem anos viu nascer,
E jamais verá morrer
A arte de Vitalino.

Já o “frei” Varneci Nascimento, cordelista consolidado, historiador, agitador cultural, escreveu:

MESTRE VITALINO

Filho de mãe artesã
E um pai agricultor
Vitalino inda menino
Tornou-se observador,
Da mãe, pra poder depois,
Mostrar todo seu valor.

A mamãe com todo amor
De barro dava o restinho
Vitalino começou
Fazer boneco e jeguinho
De cerâmica modelando,
Um cangaceiro, um pratinho.

Trabalhando com carinho
Virou mestre e muito mais
De modo que sua obra
Tem dimensões mundiais,
Levando brasilidade
Para os centros culturais.

Sua mão tão perspicaz
O fez muito respeitado
Deu forma ao que ninguém
Ainda havia formado,
Com sua obra nós temos
Até cordel ilustrado!

Hoje imortalizado
Está esse nordestino
Que com o barro mostrou
O sertão de sol a pino,
E agora o cordel demonstra
Quem foi mestre Vitalino.

O cordel que é nosso hino
Do presente e do passado,
Como Vitalino foi,
Um ceramista arretado,
Jamais por nós, os poetas,
Deixará de ser lembrado!

Outro poeta, Celso Góis, profícuo e livre em sua arquitetura poética, lá de Canindé, no Ceará, mandou:

MESTRE VITALINO

Em julho do ano nove
(Século XX) nasceu
Nosso Mestre Vitalino
Que o mundo reconheceu
Fez da arte sua tribuna
Famoso mas sem fortuna
Muito pobre inda morreu.

Pernambuco foi seu berço
Seu torrão de nascimento
Tentou destaque na música
Mas tinha outro talento
Como na história de Adão
Retirou vida do chão
No barro do seu sustento.

Nascido em Caruaru
E lá mesmo residia
Não conheceu a escola
Não lia nem escrevia
Mas honrava seus irmãos
Com a cultura das mãos
Que para o Brasil fazia.

Sua arte encantou
E encanta ainda a nação
Admirado no mundo
Ao Brasil deu projeção
Grande Mestre Vitalino
Orgulho do nordestino
Que ama e cultua o chão.

Na reflexão profunda sobre o mito criador, com sagacidade, o poeta Bem-te-vi Neto, enviado por Arievaldo Viana:

Diz a Sagrada Escritura

Que Adão foi feito de barro
Mas essa história eu não narro
Porque é mentira pura…
Inda tem gente que jura
Que tudo isso é passado,
Deus é um Santo Sagrado,
Ele nunca foi “loiceiro”
Pra estar dentro dum barreiro
Fazendo cabra safado!

E os versos completos de Rouxinol de Rinaré:

CENTENÁRIO DE MESTRE VITALINO

Agora em dois mil e nove
Festeja-se o centenário
De Vitalino Pereira
Que em seu itinerário
Virou “Mestre Vitalino”,
Artista extraordinário!

Talento e imaginação
Não faltou ao ceramista.
Como Deus formou Adão
(Cá no meu ponto de vista)
O barro ganhava formas
Nas mãos desse grande artista.

Luis Gonzaga cantou
O Nordeste em seu baião.
Mestre Vitalino, em barro,
Moldava com precisão
Cenários e personagens
Que via pelo sertão.

Nasceu em Caruaru,
Mas percorreu o país.
A arte rompe fronteiras,
Existe um jargão que diz,
E a arte de Vitalino
Chegou ao Louvre, em Paris!

Agradeço demais a todos que contribuíram e aos que não puderam, pois o chamado foi na véspera da gravação do programa na Chácara do Céu, em Santa Teresa no Rio de Janeiro. Lembrando que a simpatia de Ancelmo Góis e o bom humor e descontração de toda a produção do programa são coisas que merecem ser anotadas.

Deixando alguns créditos ainda: solfejei a música Caldeirão dos Mitos, de Bráulio Tavares, gravada por Elba Ramalho. Essa música ouvi pela primeira vez com o próprio Bráulio cantando num dos Festivais de Arte da cidade de Areia, na Paraíba. Na época eu era um menino que queria ser artista.


Durante a entrevista citei ainda a música O deus do barro, cantado por Petrúcio Amorim. Na edição final do programa não foi para o ar, mas posto aqui o clipe.


Não posso esquecer os bons préstimos de Arievaldo Viana, poeta e nosso professor de cordel, pela vontade com que mobilizou outros poetas. A ele agradeço o cordel de Arlene Holanda, com quem pude trocar meia dúzia de palavras. Tampouco esquecerei de João Gomes de Sá, amigo recente, poeta cordelista antigo, sempre amável e receptivo aos meus pedidos.

É isso.

Aderaldo Luciano3 April 2009 5:15 pm

1.
Não
caminho apenas para a frente
vou em todas
as direções

sobretudo
caminho para trás
para tentar achar novamente
o bom caminho

2.
Não
há uma pedra no meio do caminho
todo o caminho
é pétreo

sobretudo
o céu acima
por onde fica cada vez mais
difícil caminhar

3.
Entretanto meu pé-aço
é antigo e batizado
fura a pedra, acerta as bordas
desliza se for chamado
caminha vezes pra trás:
pensa o trecho caminhado.

Aderaldo Luciano14 March 2009 7:08 pm

1. Branca de Neve era uma mulher rodeada de miudezas!

2. Zeus já Hera.

3. O sertão vai virar Marte.

4. Cristo está votando.

Aderaldo Luciano15 February 2009 8:12 pm

A produção cordeliana encontrando o seu herói épico,

Lampião,
não existe outro de tão forte identidade quanto ele,

baixa os fundamentos de nossa epopéia.

Ele, Lampião, sintetiza: o

Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias

e

o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela

Igreja,
em sua certidão de batismo;

Estado,
representado pela instituição da Polícia Militar

e

é maravilhoso,
épico-burlesco,
herói-cômico,

nas façanhas do outro lado da vida.

Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

Aderaldo Luciano 8:07 pm

Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido,

de certa forma,
ou
de forma certa,

infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a

Literatura de Cordel

resistiu,
fundou sua própria poética,
consagrou poetas,
penetrou em todas as camadas sociais,
influenciou escritores e estudiosos,
transformou-se num

símbolo,
ícone,
índice,
signo
e
sinal

de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior

Lampião,

estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira

identidade.

Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

Aderaldo Luciano5 February 2009 4:59 am

O cordel continua


E vai mesmo

E transcende!

Precisa de palavras? Precisa! O cordel é fundamental e os olhos de quem não enxerga esse pormenor sejam vazados pela espada certeira de Carlos Magno e os pares de França!

Aderaldo Luciano 4:48 am

A primeira cidade onde morei depois que fui embora de Areia, aos 16 anos, foi Campina Grande. Eu venerava a cidade Rainha da Borborema e cantava com lágrimas a célebre canção de Luiz Gonzaga e Raimundo Asfora, Tropeiros da Borborema:

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

São tropas de burros que vêm do sertão
Trazendo seus fardos de pele e algodão
O passo moroso só a fome galopa
Pois tudo atropela os passos da tropa
O duro chicote cortando seus lombos
Os cascos feridos nas pedras aos tombos
A sede e a poeira o sol que desaba
Rolando caminho que nunca se acaba

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

Assim caminhavam as tropas cansadas
E os bravos tropeiros buscando pousada
Nos ranchos e aguadas dos tempos de outrora
Saindo mais cedo que a barra da aurora
Riqueza da terra que tanto se expande
E se hoje se chama de Campina Grande
Foi grande por eles que foram os primeiros
Ó tropas de burros, ó velhos tropeiros.

E continuo me emocionando. Tanto pela cidade, quanto pela música!

Aderaldo Luciano 4:24 am

O Nordeste brasileiro é terra fértil. Longe daquele cenário de aridez contundente, de terra rachada e rezes secando ao sol, de almas peregrinas e corpos esqueléticos, há uma terra viva e pujante. Basta uma chuvinha para a paisagem transmudar-se do vermelho para o verde, dos rostos rasgados em rugas protuberantes para o sorriso atenuante das misérias. Naquele infinito resguardam-se, em axilas geográficas e sociais, resquícios mais recônditos de tempo imóvel ou lento. No dizer de Gilberto Freyre:

Diga-se de início do Nordeste brasileiro que, considerado numa perspectiva histórico-social que seja também antropocultural, além de ecológica, é não um só, porém dois ou três: um tropicalmente úmido, outro tropicalmente árido, um terceiro intermediário; que do seu homem do litoral - área canavieira ou agrária - se pode dizer vir sendo, à sua maneira, tão válido quanto o sertanejo glorificado pelos Euclides da Cunha; que é região que se apresenta, quanto à biologia da sua população, como a mais amplamente miscigenada do Brasil, com a mistura europeu-ameríndio-africana variando em proporções, numas sub-regiões predominando, depois do europeu, o ameríndio, noutras, o africano; que assim miscigenado o Nordeste vem dando ao Brasil, desde os dias coloniais, líderes políticos, líderes militares, intelectuais, religiosos, artistas; que essa capacidade de liderança, ao lado da combativa, antecipou-se em revelar-se no século XVII, quando a gente nordestina, nem sempre auxiliada, como devia ter sido, pelas metrópoles, portuguesa ou espanhola, expulsou do Brasil o invasor norte-europeu e protestante. Liderança, então, significativamente de um branco já da terra - Vidal de Negreiros; de um ameríndio - Felipe Camarão; de um negro ou africano de origem - Henrique Dias.

Ora, os três nordestes têm nome mais apropriado, no dizer do povo:
um é o

sertão,

aquele filho maltratado e esquecido por longas datas, no qual se viu florescer uma certa “indústria da seca”, por onde filhos do solo herdaram de sua condição sub-humana atitudes atrozes, os cangaceiros, e outros apegaram-se ao transcendente, romeiros, ambos com a estampilha do fanatismo timbrado em seus invólucros e conteúdos.

O outro é o

mar,

aquele no qual se estende o que, supostamente, seja o melhor dos trópicos, a fartura de água, a palmeira, a sensualidade, as ladeiras, um rol de maravilhas para onde o primeiro Nordeste aspira.

É tão violenta a diferenciação que se transformaram em antípodas essas duas condições, ao ponto de o messiânico Antonio Conselheiro preconizar a célebre exclamação “— O sertão vai virar mar!”.

O Romance Social de 30 cantou os dois cenários. Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz abriram as portas da “seca terrível que tudo devora”, enquanto Jorge Amado banhou-nos com seu mar baiano.

Há o terceiro nordeste: aquele que situa-se entre os outros dois. Conhecido como

Zona da Mata ou Zona Canavieira.

José Lins do Rego e o mesmo Jorge Amado nos apresentam essa faixa de terra mais fértil, mais fria e mais miscigenada, como aponta o Freyre.

Por ser um entreposto meio aos dois caminhos recebeu influências de quem passa para o litoral e de quem atravessa para o sertão. Os conflitos daí resultantes, também as intersecções e acordos, sincretismos e discrepâncias, são a matéria mais visível nos estudos sócio-culturais e antropológicos. É nessa faixa de terra, nesse meio, que se encontra a conhecida região do brejo paraibano. E é nesse brejo que encontraremos o cenário para minhas inquietações político-espirituais: a fantasmagórica cidade de Areia, pequena, pacata, adormecida e pagando seus pecados sob os olhos furiosos de casarões malassombrados e um passado de terrores!

E todos estão acordados e loquazes em meu quarto insone!

Aderaldo Luciano 4:24 am

Alguém apontou para o fim das grandes narrativas. Outros atestam a consolidação do romance histórico. Ainda outrem percebem formas experimentais para narrativas mixadas. Tempo de experimentos, tentativas de neo-vanguardas. A arte tomou ares de espaço, transformou-se em intervenção, trânsito, performance, piscar d’olhos. A literatura encontrou sua encruzilhada.

E a escrita de Janaína Azevedo, por onde vai?

Filha da escrita regionalista, ela não quer cantar os cenários de sua vetusta cidade, tampouco os recantos e conflitos sociais de seu nordeste medieval. Suas ações transcorrem demarcadas. E essa área de ação é definida pelas relações familiares. A base do patriarcalismo nordestino é a fundação mais profunda da família ibérica, com suas amarras religiosas extensivas à sociedade. Essas amarras são legitimadas pela tradição. A tradição perde-se no tempo e toda e qualquer novidade é medida pela sua régua. A família, laboratório literário, de Janaína encontrará mulheres

sonhadoras,
sonâmbulas,
mal-amadas,
loucas,
avançadas,
tristes.

Raras livres!

Janaína tem dois volumes de contos:

Marias. João Pessoa: Editora da UFPB, 1999. (Prêmio Novos Autores Paraibanos)

e

Orquídea de cicuta. João Pessoa: Ed. Manufatura, 2002. (Coleção Olho D’Água)

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