Aderaldo Luciano4 January 2010 4:42 am

Os meus amigos poetas cobram-me a escritura de um cordel. Ainda não criei coragem para isso. Falta-me peito. Temo os mestres, amedronto-me com os espíritos pioneiros. Sou um Manoel-Borra-Botas. Por enquanto, sigo os caminhos da crítica e da mímica poética. Por isso, deixo aqui partes de meu novo livro Do que disseram os poetas que quisera fosse poesia. Aliás, a professora Heloísa Buarque de Holanda disse-me, frente a diversas testemunhas, que meu livro O auto de Zé Limeira seria um ensaio. Talvez esse próximo também o seja. Os dois fazem parte de uma trilogia que se encerrará em 2011 com Os aspectos do boi. Essa trilogia é assinada por Aderaldo Cangaceiro, mas vamos ao que interessa. Do que disseram os poetas é uma cantoria que registrei e passei para a escrita, oferecendo um acréscimo aqui e ali, adulterando os versos originais. Como os cantadores não se opuseram, amarrei-lhes uma forma e coloquei o nome de um alter ego. Trata-se, portanto, de uma apropriação.

1. Por ocasião da chegada de uma moça formosa que se sentara na platéia

— Observe a obra rara
Que Deus fez para nós vermos
Mente sã e corpo são
O Belo em todos os termos
Fitoterapia e química
Deixando nós dois enfermos!

— Labirinto a nos perdermos,
Entranhas da Natureza.
Quais mãos esculpiram a Ninfa
Com tanto esmero e destreza?
É Céu e Geena juntos
Deixando a gente mais presa!

— Considere esta surpresa
Na tênue luz de um quarto:
Boca, seios, glúteos, coxas,
dorso e cabelo farto
corpo-fruta acidulado
Deixando ao poeta.. infarto!

— É como se fosse um parto
Tendo a ação dividida
Parturiente e parteira
Sentindo ambas a vida
A sudorese e o sorriso
Deixando a dor sem saída!

2. Por ocasião de um galo ter cantado por volta da meia-noite enquanto a cantoria seguia

— Os galos de minha terra
São galos-maracanãs
Acordam com sua música
Cabras, ovelhas, marrãs
Riscando com o bico-canto
A leve tez das manhãs

— Deslizam qual rolimãs
Sua pauta musical
Estendem suas bandeiras
Nas cercas do meu quintal
Terreno sonoro extenso
Todo dia, por igual.

— Nenhum galo canta mal
Todos têm o mesmo encanto
Mas têm cantos diferentes
Uns de riso, outros de pranto
Uns porque morreu um louco,
Outros, por nascer um santo!

— Todo embrulhado em um manto
Para amenizar o frio,
O tilintar dos meus dentes
E as águas desse meu rio.
E os galos indiferentes
Cantando horas a fio.

3. Por ocasião de duas crianças terem homenageado os poetas com ramalhetes de flores no intervalo da cantoria

— Flores, perfumadas flores
Por mãos de botões trazidas
As rimas do nosso rumo
São estampas coloridas
flores e rimas efêmeras
Eternas lembranças idas

— As cores de nossas vidas
Saem de um prisma talhado
Em cristal, pedra-de-fogo,
Polido quartzo incrustrado
Na Serra da Borborema
Dentro da pedra gestado

— O sertão é um cercado
De pedras que são humanas
De homens que são de pedra
De dias que são semanas
E de séculos dissolvidos
Num só bater de pestanas

— Há secas que são insanas
E chuvas benevolentes
Há crianças como essas
Que trazem flores contentes
E há flores mudando a vida
De dois poetas cadentes.

4. Por ocasião de um professor chamado Abrão, ter pedido por escrito que os poetas opinassem sobre o conceito de imitação platônica

— Subentenda-se um novelo
Contido em um simulacro
E este por sua vez,
Como um objeto sacro,
Escravizado por outro
Em uma caixa que eu lacro.

— Verei se desencalacro
O conceito de Platão:
Há um pão que está no céu
Outro que está no balcão
O padeiro imita Deus.
E aos dois a palavra PÃO!

— Palavra e imperfeição
Distando em terceiro grau:
Imita o produto humano
Que imita o celestial
Guardado fora do mundo
Na noite mais ancestral

— Prender nosso cabedal
Com o grilhão da vossa estética
É querer que um desregrado
Leve vida mais ascética
É nos dar o cadafalso,
Enforcar nossa Poética.

5. O verso de improviso encafifando os críticos ignorantes na arte da cantoria

— O verso de improviso
É momentânea ilusão
Espera-se que o poeta
Quebre o pé da criação
Deixe-o manco, ferido
Como um ferro retorcido
Cuja única serventia
É ser aleijão disforme
Um monstro que nunca dorme
Deformando a Poesia.

— O poeta, todavia,
De boa cepa gerado
Constrói no barro do verso
Um vaso bem adornado
Dá-lhe cores, apetrechos,
Capaz de lhes dar desfechos
Surpreendendo a platéia
Que ao crítico literário
Ensina o abecedário
Com toques de cefaléia.

6. Porque um poeta formado nas academias não sabe improvisar e por isso rotula essa arte, a do improviso, de arte menor

— O poeta de bancada
Sentado em seu gabinete
Passa a vida reescrevendo
Seu verso para um banquete
Diz: “Poesia é Trabalho”
E insiste em dar mais um talho
Naqueles versos ranzinzas.
Por vezes o resultado
É papangu desolado
Na Quarta-Feira de Cinzas.

— Enquanto que o repentista
em seu furor instantâneo
Formula e burila o verso
No caldeirão de seu crânio
O que duraria um mês
Dura um segundo ou três
E eclode quente e bem feito
O ouvido que escuta
Reconhece ali labuta
E acabamento perfeito.

É! Acho que chega de maltratá-los.

Aderaldo Luciano2 December 2009 5:44 am

Chegou-me à mão o cordel A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares de Benedita Delazari. A autora nasceu em Sales, São Paulo, e sua autoria em cordel vem quebrar um paradigma fictício por cujas regras o cordel obrigatoriamente teria de ser produzido por nordestinos. O equívoco dessa prerrogativa é flagrante diante do trabalho literário. Sendo o cordel uma forma poética, qualquer poeta pode, desde que o queira, abraçar-lhe o engenho e emprestar-lhe a arte. E foi isso que moveu Benedita.

Publicado pela Editora Luzeiro, a principal casa publicadora de cordeis brasileira, o folheto desde já se insere no produto poético brasileiro como um achado, uma descoberta. Se no passado a produção de cordel ressentia-se da autoria feminina, Benedita aos poucos vem suprindo essa lacuna. Tendo lançado em 2005 As aventuras do menino Jesus, fruto das histórias ouvidas, lidas e vividas em sua fé e crença, a autora seguiu os passos de sua ascendência e nos oferece, além de sua versão para a saga dos nossos afro-descendentes, uma boa página poética.

Em 64 sextilhas o folheto conta resumidamente os fatos e desarranjos decorrentes de todo o processo escravocata em solo brasileiro. O seu narrador é seco, mas criativo, fazendo cumprirem-se a todo momento as regras do cordel, sem ceifar das estrofes a necessária compreensão, nem cometer a maldade das maldades: quebrar o pé do verso. Mesmo em sextilhas truncadas como as três primeiras, é necessário notar o esforço técnico e o respeito ao rigor para não macular a forma. Assim:

Na história da humanidade
Muitos feitos são contados,
Quero citar o exemplo
Dos nossos antepassados,
Heróis de um povo forte,
Para a luta preparados.

Belo exemplo encontrei:
Gladiadores romanos,
Ao libertarem escravos
Das mãos de nobres tiranos,
Muito tempo resistiu
Exército de espartanos.

Com a história do Brasil
Faço uma comparação,
De um fato acontecido
No tempo da escravidão,
Por um quilombo de negros
Formando rebelião.

Quando escrevo “truncadas” não quero dizer trancadas. Explico: a compreensão não é prejudicada pelo artifício na busca do respeito à métrica e à estrófica do cordel. Para essa adequação é fundamental a supressão de palavras e, certas vezes, de termos, deixando apenas a indicação para que a intuição do leitor, ou seu cabedal cordelístico, lhe confira compreensão. Voltemos ao truncamento das sextilhas. A primeira deixa ao leitor séria dúvida: a que povo forte refere-se o narrador? Aos negros africanos ou aos gladiadores romanos que vêm logo a seguir na segunda estrofe? Quem são os herois desse povo forte preparados para a luta? Tenho dito que a primeira estrofe de um poema de cordel deve ser perfeita em todos os sentidos. Para seduzir o leitor, prendê-lo, acorrentá-lo às surpresas do que virá.

A segunda estrofe deixará seus dois últimos versos quase órfãos, senão totalmente órfãos. Por quê “Muito tempo resistiu/ Exército de espartanos”? Qual a função desses dois versos na estrutura da estrofe? Aparentemente eles nada dizem. E atenção: não estou afirmando que o verso seja ruim! Não. A autora tem o domínio poético e métrico e, talvez por isso, para respeitar as rígidas regras do cordel, tenha se permitido essa construção que soa duvidosa quanto à pertinência. Para a terceira estrofe ficará o quinhão mais difícil. Vejamos.

Onde reside a semelhança entre a nossa história de escravidão e as ações dos gladiadores romanos libertando escravos de “nobres tiranos”? Citando elementos historicamente distantes e sem relação alguma, essa comparação necessita de base para ser edificada. Há, porém, a seguir dois pontos a observar: o termo “quilombo de negros” é redundante. Bastaria a palavra “quilombo”, pois essa é a palavra para designar a associação de negros fugidos e refugiados em aldeia no coração do sertão brasileiro. E faz-se necessário esclarecer o fato de que os quilombos não fizeram rebelião, criaram resistência. Essas observações deveriam ter sido proferidas quando da revisão. São questionamentos que o revisor deve colocar, sem constrangimentos, para o autor. A decisão final é do autor, mas a obrigação de alertá-lo para esses pequenos deslizes é do revisor. São essas feridas responsáveis por todo tipo de críticas contra o cordel, mas o poema de Benedita não são apenas essas três estrofes.

As estrofes lidas anteriormente perdem força quando a quarta estrofe, na virada de página, anuncia magistralmente:

Muitos livros de história
Contaram essa aventura,
O assunto é muito fértil
E o interesse perdura.
Ofereço aos estudantes
Um livro em miniatura.

Estrofe redonda. Prima. Lúcida. O folheto de Benedita começa aí e desconfio, de verdade, que essa tenha sido a primeira estrofe construída para ele. E se não o foi, deveria ter sido. A partir dela o folheto toma um rumo crescente, em poesia e história. Para escrever sobre Palmares, bem como sobre qualquer fato histórico, o pre-requesito é a pesquisa e a autora a fez diligentemente. Encontraremos outros pequenos deslizes, mas nada que uma boa revisão não os estirpe, sem haver necessidade de grandes mudanças textuais. Também encontraremos momentos de intenso teor poético, como este:

Relembro o Navio Negreiro
O porão escuro e fundo,
Como escreveu o poeta:
“Infecto, apertado, imundo”
O morto de fome ou peste
Atirado ao mar profundo.

Ou este:

Em caso de rebeldia
O negro recém chegado,
Era levado às caldeiras
Pelos pés agrilhoado,
Ali trabalhando meses
Noite e dia atormentado.

O desenho da capa feito por Cícero Soares é ponto alto do cordel. Em apenas duas cores, preto e marrom, seu jogo de sombras, com Zumbi, no plano americano, tendo ao fundo paisagem quilombola, na qual figuram o trabalhador, a mulher e a criança, a habitação e a mata, suprem a imagem de um vigor realístico fascinante. Preciso anotar, entretanto, que o título em caixa alta é uma armadilha pois confunde o topônimo com o resto do texto, não sendo possível a identificação das letras maiúsculas. O recurso de “negritar” o artigo “A” lhe concede destaque inóquo, quando bem poderia ter servido de traço distintivo para o “Q” de quilombo e o “P” de Palmares. Outro senão é o texto do miolo todo em itálico. Sabe-se que o uso desse recurso serve para destacar uma palavra ou um termo, não cabendo o seu uso indiscriminado sobre todo o corpo poético. Coisas a serem reparadas na segunda edição.

No mais, Benedita usa e abusa do seu talento, terminando seu poema com a tradicional ruptura em acróstico, só que ao invés de seu nome, ela crava BRASIL, assim:

Brasil terra de heróis
Revelando seu valor
A sua “Constituição”
Simboliza com louvor:
Igualdade de direitos
Liberdade, paz e amor!

Quero lembrar que o papel do crítico é ingrato e doloroso, mas fundamental para a discussão sobre o fazer poético. É bom acrescentar que sem o poeta, a figura do crítico jamais existirá. Por isso, vida longa aos poetas. Vida longa à pena de Benedita Delazari.

Aderaldo Luciano27 November 2009 4:58 pm

A semana passada estive em São Paulo por 5 dias para inteirar-me do movimento, que virou escola, Caravana do Cordel. Diante desses empreendimento de poetas cordelistas em torno do seu principal produto cultural, o cordel, tudo parece pequeno. A produção continua firme, as publicações também. As editoras aos poucos estão abraçando a causa. E os meios de comunicação, decobrindo o material. Aliás, ontem, dia 26, foi para o ar pela Rede Internacional de Televisão, a RIT, da Igreja da Graça, do missionário R.R. Soares, matéria no Nosso Programa, programa de variedades, à tarde com os cordelistas João Gomes de Sá e Varneci Nascimento. Esse fato é pontual na história do cordel. Foi alvissareiro ver na tela imagens do cordel Homossexualidade: história e luta, de Varneci e Nando Poeta. Bem como Os dez mandamentos do preguiçoso, do mesmo Varneci. A Caravana está forte e crescendo.

Desse encontro surgiu a palestra sobre Leandro Gomes de Barros, no dia 19, para uma plateia de cordelistas e músicos. No meio deles achava-se Gregorio Nicoló, dono da Editora Luzeiro, a mais antiga casa de publicação de cordel no Brasil e uma das primeiras editoras de São Paulo. Gregorio tem sido peça chave na consolidação do cordel publicando autores novos e consagrados e recebendo com rara sensibilidade estudiosos que queiram olhar o seu acervo. Desse nosso encontro saiu a parceria para novos empreendimentos em termos de publicação de Antologias de cordel.

Passei, ainda, na Editora Nova Alexandria, na qual trabalha o poeta Marco Haurélio, figura ao redor da qual se construiu a Caravana. Marco é curador da já afamada coleção Clássicos do Cordel. É um homem cuja pena de poeta complementa o tino de pesquisador e a visão de mercado. Acabou de publicar pela Paulus a Lenda do Saci Pererê, em cordel, com ilustrações da pernambucana Elma. Uma edição magnifica, de luxo. Veio juntar-se a O príncipe que via defeito em tudo, publicado anteriormente pela Acatu, com ilustrações de Nireuda Longobardi.

Além dos consagrados tive a oportunidade de travar amizade com Pedro Monteiro, cordelista estreante autor de Chicó, o menino das cem mentiras, quando retoma o personagem clássico do cordelismo brasileiro, menos conhecido do que seu parceiro João Grilo, mas tão importante quanto. Pedro Monteiro é um autor síntese cuja produção é regida pela pesquisa e pelo rigor. Apesar de estar começando, seu traço poético deixa entrever um futuro promissor. Começar no mundo do cordel com Chicó é ousadia e conquista.

Outro de quem me acheguei foi Nando Poeta. Já com alguns títulos no matulão, Nando é o poeta engajado. Ativista político, trouxe para o cordel as lutas sociais. Assim seus folhetos 1º de maio, Assédio moral é crime e Educação não é mercadoria preenchem uma lacuna, sem se despedir do essencial no cordel: a poesia. Alertado para o fato de não cair no panfletarismo, Nando busca o equilíbrio entre o lírico e o épico. Mas é necessário andar devagar para dosar as cores sem exageros.

No dia 19, quando de minha palestra, foi lançado um cordel de Benedita Delazari intitulado A escravidão negra e o quilombo dos Palmares, com ilustração de capa de Cícero Soares. Em duas cores, preto e marrom, esta capa impressiona pela maestria, colocando por água a tese de que o cordel tem que ter obrigatoriamente uma capa de xilogravura. Em tópicos futuros apresentarei um por um esses cordeis e falarei mais dos cordelistas em São Paulo, disputando a vanguarda com o Ceará. Vanguarda que já foi paraibana, mesmo produzida a partir de Recife. Outra história.

Aderaldo Luciano5 November 2009 4:39 pm

Quando o poeta Marco Haurélio trabalhou na arrumação editorial da Luzeiro, mantivemos intenso contato sobre a maneira mais justa de respeitar o autor de cordel e oferecer-lhe dignidade editorial. Concluíamos que a atribuição do ISBN às obras de cordel poderia contemplar nosso anseio. As dificuldades vividas pela Luzeiro não permitiram essa tarefa. Um catálogo aproximado de mil títulos e sem pessoal para a realização do trabalho, nem capital para investimentos e relançamentos de títulos fundamentais, fizeram a carroça do esforço estacionar. Marco Haurélio passou para a Editora Nova Alexandria para encabeçar o projeto editorial de Clássicos em Cordel, uma coleção de clássicos da literatura universal adaptados para o cordel.

A partir dessa coleção, o plano de dignificação autoral dos cordelistas iniciou-se e o cordel teve, nesse momento, um marco em sua produção e comercialização. Marco Haurélio, compreendendo essa aura, trouxe para junto de si aquilo que chamamos de a geração coroada: poetas como Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Moreira de Acopiara, Varneci Nascimento, João Gomes de Sá, Costa Sena, Cacá Lopes, alguns já com sua adaptação dos clássicos publicadas e outros investidos na Caravana do Cordel, movimento de divulgação do cordel em São Paulo.

A Caravana se apresentará dia 7 de novembro, na Rua Augusta, 1239 – Espaço Cineclubista, às 19:00 h, apresentação de aniversário de um ano, homenageando o poeta maior da Literatura de Cordel, Leandro Gomes de Barros. E no dia19 de novembro, Dia Nacional do Cordelista (data de nascimento de Leandro) haverá novo encontro, desta vez com a nossa participação.

Aderaldo Luciano31 October 2009 6:59 pm

Palavras recebidas de vários poetas cordelistas por ocasião da defesa de minha tese de doutorado:

Doutor Aderaldo

Aderaldo Luciano, paraibano radicado no Rio de Janeiro, pesquisador, professor, músico e poeta, agora é, também, doutor. Doutor em Literatura. E, mais: sua tese vai na contramão dos estudos sobre o cordel, os antigos e os “mudernos”, ancorados em argumentos frágeis, pouco criteriosos, desrespeitadores da individualidade poética, responsáveis pelas paliçadas erguidas entre uma suposta literatura erudita e a – assim chamada – popular.

Parabéns, mestre, ou melhor, doutor!

Marco Haurélio, poeta e curador da coleção Clássicos do Cordel, da Editora Nova Alexandria.

Este sabe o que diz. Doutor Aderaldo, como dizem aqui no Ceará: - Você tá no rumo!

Arievaldo Viana, poeta e agitador cultural no Ceará de luz!

Procure o Doutor:

Agora temos um doutor para
nos “receitar” preventivamente e medicar umas “meisinhas” para curar alguns delizes no universo cordeliano.
E aí vai: como uma manifestação literária genuinamente brasileira,
desprezada pela cultura acadêmica, denominada gênero nemor ou subliteratura ou ainda manifestação marginal em verso é tão popular?
Agora, requer, em verdade, um amplo debate, simpósio, fórum para aparelharmos com fundamentação as nossas ideias e teses.
Um abração para o Cangaceiro Doutor ou
Doutor Cangaceiro da Serra da Borborema!
Parabéns!

João Gomes de Sá, poeta e dono da cultura em Guarulhos-SP

Sou potiguar e um curioso sobre a literatura de cordel. Aliás, também colecionador. Já acompanhei Aderaldo Luciano em duas edições do programa “De Lá Prá Cá”, da TV Brasil: Mestre Vitalino e Patativa do Assaré. Boas intervenções.
Espero que em breve, essa tese seja transformada em livro, para o devido acesso ao seu precioso conteúdo.
Parabéns!

Carlos Alberto, cordeleiro de Natal-RN

Aderaldo Luciano, como simples aprendiz da poesia de cordel, apenas quero lhe agradecer pela grande contribuição que você veio nos trazer. Certamente sua tese de doutoramento vem para corrigir muitas distorções sobre o cordel, pois não são poucos os equívocos que vemos por aí. Assistindo sua palestra, há um ano, em Guarulhos, no primeiro Salão do Cordel, pude ver seu grande conhecimento, e sei que não é diferente a sua tese. Estou ávido por lê-la. Bem vindo, poeta doutor, ou doutor poeta, saiba que você encontra em nós cordelistas verdadeiros irmãos. Parabéns por mais essa conquista!

Varneci Nascimento, poeta maior da Ordem Franciscana Menor, de São Paulo

Passe para frente o seu
Valioso aprendizado.
Não retenha este poder
Pra não ser penalizado,
Com a dor na consciência
Vendo o povo atrasado.

Parabéns poeta Doutor.

Que os horizontes se alarguem, e até o debate se acalore! Mas a sede do aprender, possa ser saciada.

Pedro Monteiro, a pedra angular da poesia, de São Paulo.

Valeu, Aderaldo. Agora só me resta esperar o momento certo para ler a sua tese, que, espero, seja publicada em formato de livro, para que os mais atentos tenham acesso. Não vejo a hora.
Grande abraço desse seu admirador,

Moreira de Acopiara, poeta, repentista, ícone do cordel, de São Paulo.

A todos meu muito obrigado.

Aderaldo Luciano30 October 2009 4:15 pm

O texto abaixo foi escrito para o programa do espetáculo Baião - a homenagem do circo a Luiz Gonzaga, encenado pela trupe do Circo Crescer e Viver, dirigido por Ernesto Piccolo, com roteiro de Rogério Blat e direção musical de Daniel Gonzaga:

O interior do Nordeste foi marcado pela presença do circo. E o circo, pela presença litúrgica de um palhaço desbocado. Havia, porém, um ponto alto todos os dias. Era a segunda parte do espetáculo: a encenação de um drama. Vimos centenas de vezes a Paixão de Cristo. Além de sofrermos solidários ao Cristo crucificado, regozijavamo-nos com Judas se enforcando. Era uma limpeza de alma, uma calma para o espírito.

O circo ficava entre nós geralmente por um mês e nós, da cidade, terminávamos por conhecer as famílias circenses e participar de sua dura vida na perpetuação de sua arte. Muitos partiram com o circo e nunca mais voltaram. Tivemos essa vontade, mas vontade dá e passa. Os circos maiores traziam, de vez em quando, um cantor da moda, que tocava no rádio, e lotava a arquibancada.

Entre encenações de dramas, palhaços infames e cantores bissextos, vimos certa vez um negro vestido de cangaceiro, tocando sanfona e cantando “no gogó”, sem microfone, transformando o circo num arrasta-pé. Mais tarde saberíamos tratar-se de Luiz Gonzaga, fazendo o maior forró do mundo, preenchendo o nosso vazio, construindo o nosso itinerário. Aquela voz poderosa reside ainda hoje, fazendo eco, em nosso coração.

Foi a união da fantasia do circo e da música gonzagueana que deu-nos coragem de arribar e fazer o nosso verão. Foi com ela que embalamos nossos sonhos, malabaristas que somos na corda-bamba do tempo. Foi com ela que, como bons filhos, voltamos ao chão de onde brotamos e respiramos o ar de nossos tempos idos. Luiz Gonzaga é o arquétipo nordestino por excelência e o picadeiro é a vida a encenar-se.

Hoje voltamos para dentro da lona e compreendemos o que vem a ser o círculo. Como naqueles antigos circos sertanejos, retornando sempre na mesma época do ano, cá estamos nós, esperançosos para ver a cortina se abrir e lá, de um misterioso e secreto lugar, ver o Lua surgir, crescendo e se fazendo vivo, abrindo a sanfona branca e arrancando do peito a voz mais terna e saudosa a cantar: — Eu vou mostrar pra vocês… como se dança o Baião!

Aderaldo Luciano11 October 2009 6:28 pm

Toda adaptação dá origem a uma nova obra. Aqui também. A adaptação de Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, por João Gomes de Sá é, de fato, uma outra obra. O poeta reuniu coragem para transpor a história passada na Paris medievalesca para o sertão nordestino.

João Gomes de Sá é alagoano e autor profícuo, tendo escrito A luta de um cavaleiro contra o Bruxo Feiticeiro, profundamente enraizado na tradição cordelística. Em O Corcunda de Notre Dame, a adaptação de Notre Dame de Paris, ele se supera em maestria. Suas sextilhas iniciais são primordiais:

O romance do Corcunda
De Notre Dame, leitor,
Escrito por Victor Hugo,
Aquele grande escritor.
Em versos vou recontá-lo
Sua atenção, por favor.

Antes, porém, quero dar
Essa breve explicação:
O cenário do Corcunda
Eu trago para o sertão;
O Nordeste brasileiro
É palco de toda ação.

Além da mudança do cenário para Santana de Cajazeira, denominação nordestina, alguns personagens também mudam de nome. Quasímodo passa a Quasimudo e seu guardião a Padre-Mal. Para nós é de extrema sagacidade a transposição da história. Ao poeta deve ser dado o direito de, na hora da adaptação, escolher cenário e nomes novos, sem alterar o enredo e o argumento original, já que o objetivo da coleção é apresentar a obra, incentivar o leitor a contactar a matriz. Além de nutrir a tradição do cordel narrativo adaptado de ousadia, na transposição do cenário, João Gomes assina seu cordel com o tradicional acróstico grafado JGSACORDEL:

Jamais o pobre Corcunda
Galgou deixar seu cantinho.
Santana de cajazeira
Abastece seu caminho,
Como elo para pedidos,
O norte para o bom ninho;
Recebe todo romeiro,
Dando-lhe muito carinho;
E espera ver seus fiéis
Libertos de tanto espinho.

Aderaldo Luciano9 October 2009 11:54 pm

Sobre o cordel, minha tese retira as seguintes conclusões:

a) o nome literatura de cordel é de origem lusa, mas má empregada em relação aos nossos folhetos de cordel, visto que são fenômenos distintos, havendo mais divergências do que semelhanças entre eles;

b) não se sabe quem primeiro atribuiu esse nome aos folhetos. Alguns dizem ter sido Sílvio Romero, em 1879, mas as evidências contradizem a afirmação;

c) quem sistematizou a publicação de folhetos de cordel foi, sem dúvida, Leandro Gomes de Barros, embora Silvino Pirauá tenha sido o criador do romance em versos;

d) a literatura tradicional ibérica foi adaptada no amanhecer do século XX para o formato do cordel, mas não é o assunto principal do gênero;

e) a literatura de cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é produto estritamente escrito, tendo inclusive, o cordel, influenciado as modalidades da cantoria;

f) as tentativas de conceituar o cordel foram sempre regidas pela sua apresentação material, nunca pela sua forma literária;

g) a literatura de cordel sempre foi tida como um subproduto popular;

h) o autor de cordel é um poeta como outro qualquer, escreve porque tem necessidade vital;

i) a literatura de cordel é literatura brasileira e como tal deve ser estudada;

j) os estudiosos do cordel foram incapazes de dar à literatura de cordel sua verdadeira dimensão literária;

k) as novas gerações de cordelistas consagram o cordel como o gênero de maior vitalidade na literatura brasileira.

Salientem ainda:

a) a literatura de cordel não tem cunho efetivamente rural. É fruto da confluência do mundo rural com o mundo urbano, do sertão com a cidade;

b) a cidade do Recife é o local onde nasce a literatura de cordel tal como hoje ela é, em sua forma e veículo de difusão;

c) quatro nomes contemporâneos são os responsáveis pela consolidação da literatura de cordel: Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde e Francisco das Chagas Batista.

d) Leandro Gomes de Barros é definitivamente o pai da literatura de cordel e seu maior escritor;

e) Estudiosos e pesquisadores desatentos ou preguiçosos foram os responsáveis por disseminar informações equivocadas, conceitos errados e enganos formais sobre a literatura de cordel.

Finalizamos:

a) Propomos uma nova classificação para a literatura de cordel, começando já pela abreviação do nome para cordel, por entendermos que esse termo já pressupõe pela tradição o seu produto literário;

b) O fazemos por entender que o cordel traz em si todos os elementos distintivos da literatura;

c) As classificações temáticas ou em ciclos não contemplam a autoria em cordel, agrupando temas e segregando os autores, sob a marca do folclórico;

d) O cordel é forma poética fixa complexa que requer subdivisões classificatórias;

e) O cordel, por nossa classificação, compreende o narrativo, o dramático e o lírico;

f) A nossa classificação é embrionária necessitando apreciações aprofundadas com o intuito de introduzir o cordel no todo literário brasileiro e na teoria dos gêneros literários como forma originalmente brasileira.

Aderaldo Luciano 11:41 pm

Quando escrevi o projeto POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE e o submeti aos centros culturais da cidade do Rio de Janeiro, fui indagado por algumas pessoas o porquê de o título ser escrito assim “poesia” com “Z”, “tradicional” com “CC” e “nordeste” com “H”. Busquei explicação no meu mapa astral e eis o que os búzios me disseram, corroborados pelo tarô e pela cabala:

Poezia porque não aguento mais o “S” querendo ter o som de “Z” e a poesia nordestina tem fortes traços orais onde o Z será sempre o Z mesmo representado por S. Olhando bem o S é um Z embriagado.

Tradiccional porque vem de World Trade Center.

Nordheste porque tive um sonho no qual ouvia uma voz que me dizia: — Coloque um H depois D senão não teremos HD.

E foi assim que fiz.

Aderaldo Luciano8 October 2009 5:58 pm

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